A primitiva pena de morte imposta ao ex-ditador iraquiano Saddam Hussein é a outra face da moeda da vida pública. Saddam foi aliado fiel dos Estados Unidos e transformou-se em miserável inimigo de uma hora para outra. Como um tufão, a vida do ditador se transformou na tragédia que ele interpreta como ator principal do seu próprio destino.
Na jaula que limita seus movimentos, Saddam mantém a arrogância dos que sabem não existir outro caminho. Reage, clama por Deus e por Justiça. Chama de algozes seus julgadores e pede morte digna: fuzilamento; não o terá, será submetido à forca, como um ladrão, assassino ou traidor vulgar.
O exemplo de Saddam serve para todos os que buscam na política e na vida pública a realização dos seus ideais. Na busca do convencimento aos eleitores, os candidatos se entregam de corpo e alma para conseguir os votos que os levarão à condução dos destinos de seus concidadãos. Na hora da disputa vale, na maioria dos casos, prometer qualquer coisa que possa tocar a sensibilidade do eleitor. Os ingênuos ou ignorantes são envolvidos pela lábia de camelô e depositam suas esperanças em personagens que dificilmente terão condições de atender às necessidades do povo.
Passada a disputa, chega a hora de começar tudo de novo. É assim em todos os países do mundo. Cada político se considera imune aos contratempos e se coloca como semideus, deixando de lado os cuidados que devem ser tomados quando se assume função pública. O principal cuidado é com a inveja que domina cada assessor que acha que o seu desempenho pessoal é que permitiu a eleição do chefe. Outro cuidado é com a cobiça. Os auxiliares desejam o comando da economia e das relações institucionais; estar numa destas funções, coloca em destaque o escolhido e o torna possível candidato na sucessão. É difícil controlar os amigos, e a solução é buscar, no ninho dos adversários, o personagem ideal para as funções. Adversário é ótimo para ocupar vaga muito disputada, pois o governante pode alegar que está preparando um importante pacto de governabilidade e necessita ceder espaços para a oposição. Os aliados, mesmo contrariados, se contentarão com funções subalternas nas proximidades do poder. Ali, poderão beliscar migalhas, e melhorar o padrão de vida com gratificações funcionais.
Este retrato do poder público é que leva o governante a se fortalecer no meio político, rompendo barreiras éticas e morais. Nesses tempos de guerras sem razão, sem motivações nem mesmo de dominação territorial, as grandes potências se mostram intolerantes com outros costumes e desejam que todos sejam iguais. Mas, não iguais perante a lei. Iguais aos governantes que querem impor seus costumes e suas leis a todo o mundo. Censuram a imprensa, impedem a livre manifestação de pensamento e enjaulam opositores.
Desde o final de 2ª Guerra Mundial, que a humanidade não consegue a paz prometida, e milhões de pessoas são sacrificadas em carnificinas regionais. A cada eleição surge um novo protótipo de ditador. Mesmo os que lutaram pela democracia acabam se cansando dela e utilizam os mesmos métodos usados pelos ditadores que combatiam. Alegam que governar é muito complicado, que a oposição é radical, que o Congresso está cheio de picaretas e que, se os obstáculos persistirem, convocarão as massas para mudar a cara do país. Com discursos desse tipo, alguns se eternizam no poder.
A condenação de Saddam não difere das condenações de ditadores expulsos ou foragidos de seus países. Estes não podem voltar à terra pátria se não passarão anos na cadeia. Nas voltas que o mundo dá, de tempos em tempos, surge o julgamento de um governante deposto pelas mesmas forças que o colocaram no poder. Este é o exemplo que Saddam deixa para os ditadores. Não há nada como um dia depois do outro, e, é bom que os poderosos que previnam contra a arrogância, pois, a forca está por perto.
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