Revista Mundo em Estilo

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Educação sexual

Meu nome é Jorge Silva; sou proprietário de uma van e transportava crianças e jovens entre 7 e 15 anos de idade.

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Meu nome é Jorge Silva; sou proprietário de uma van e transportava crianças e jovens entre 7 e 15 anos de idade. Nesses cinco anos de trabalho já vi e ouvi de tudo. As conversas entre os estudantes são variadas. Os menores tratam de jogos de vídeo games, telefones celulares e, em dias de provas, uma ou outra dúvida sobre as matérias. Os mais velhos, conversam sobre skate, futebol, vôlei, baladas, e meninos ou meninas.

Nunca ouvi qualquer deles falar sobre política, história e família; a não ser referências veladas a pais, mães, madrastas e padrastos. Religião nem se fala.

Na semana passada, minha mulher, que me ajuda no controle de entrada e saída das crianças no veículo, me chamou a atenção para uma conversa que estava se desenrolando nos bancos traseiros. Uns garotos falavam sobre uma aula de educação sexual, na qual a professora levara uma cartilha com desenhos de variadas posições sexuais, um pênis de borracha e camisinhas para orientar os alunos na prevenção contra o vírus da AIDS. Os jovens, de ambos os sexos, riam e comentavam de forma jocosa a utilização do objeto que denominavam “consolo”. Pedi silêncio, e eles se calaram.

Não tenho nenhum vínculo com as escolas e, por isto, decidi que o assunto não deveria ser tratado dentro da minha van. Fiz um cartaz e o afixei no vidro: “São proibidos comentários sobre aulas de educação sexual no trajeto entre a escola e a residência.”

No dia seguinte fui interpelado por uma mãe que me repreendeu por ter proibido o assunto sobre  educação sexual durante o percurso. A mulher estava furiosa e disse:

– Olhe aqui seu Jorge. O senhor é um estúpido, proibindo discussões sobre educação sexual em sua van. É por causa de gente como o senhor que as crianças estão mantendo relações sexuais sem cuidados, causando sérios danos à vida deles e de seus pais. O senhor não sabe que é preciso orientar as crianças para as mazelas da vida? Olhe só, minha filha, tem quinze anos e, no ano passado, teve que fazer um aborto. Eu nem sabia que ela já mantinha relações sexuais. Perguntei-lhe quem era o pai, e ela me respondeu que poderia ser o Wagner, o Pedro e, talvez o Emanuel. Questionei a dúvida com relação ao Emanuel, ao que ela me respondeu que teve uma relação com coito interrompido o que não lhe garantia que o jovem pudesse ser o pai da criança. Fiquei revoltada com a irresponsabilidade dos pais desses meninos que não orientam seus filhos a usar camisinha. Minha filha, felizmente se saiu bem do aborto e, acredito, agora tomará mais cuidado quando se relacionar com meninos despreocupados. Ela já me garantiu: - Agora só transo com camisinha.

Fiquei acabrunhado com a admoestação da senhora e ponderei que ela deveria procurar a direção da escola e expor suas razões, pois, na minha van, eu não permitiria esse tipo de conversa, além do que, eram, também, meus passageiros, crianças do primeiro grau que, evidentemente não possuíam conhecimentos suficientes para compreender a extensão da orientação sexual desenvolvida em sala de aula para estudantes do segundo grau. Ela, se quisesse, poderia providenciar outro veículo para transportar seus filhos. – No meu não, encerrei.

O assunto rendeu. Não sei como o Emanuel, ouviu a conversa e a discussão se espalhou pela escola. O porteiro veio me dizer que o boato estava correndo pelo pátio. A professora de Educação Sexual reclamou à direção, afirmando que eu cantara a mãe de uma aluna e quase fora agredido pela mulher. Fui tirar a limpo a história e, para a minha surpresa, o marido da professora me agrediu a socos e pontapés, tudo porque soubera que eu havia me insinuado a mestre, oferecendo-me para ser seu parceiro nas aulas práticas. Foi preciso minha mulher me socorrer, senão eu estaria morto.

A direção da escola formou uma comissão para ouvir os envolvidos e apurar responsabilidades. De antemão, foi decidido que os alunos não poderiam usar a minha van, enquanto o assunto não fosse resolvido.

No meu depoimento, perante a mãe da menina que fizera aborto, a professora, o marido dela, minha mulher, o aluno Emanuel e outros quinze jovens que juraram ter ouvido a minha cantada na professora, falei a verdade, afirmando que, tirando a conversa com a mãe da menina que fizera aborto, o resto era só boato. Todos reconheceram a minha inocência. No final, a comissão decidiu me advertir no sentido de não interferir nos procedimentos educacionais que são fundamentados nas mais avançadas técnicas de ensino.

Cancelei os contratos escolares, e, agora, para a minha tranqüilidade, trabalho à noite nas proximidades do Conic. Nas corridas, tento reaproximar os jovens da religião e das famílias. Tenho sido tratado com o maior respeito, e sei que todos só transam com camisinha.