Com os graves problemas que, inevitavelmente, estarão nas mãos do presidente Lula e dos novos governadores estaduais no próximo dia 1º de janeiro, é bom que os brasileiros se preparem para conviver com as dificuldades.
O presidente Lula e os governadores reeleitos não poderão reclamar de ninguém e nem culpar seus antecessores. As desculpas esfarrapadas serão substituídas pelos discursos sobre a conjuntura mundial, as exigências dos funcionários públicos, a intolerância dos movimentos sociais, a impossibilidade de governar sem o uso de medidas provisórias e a "absurda" liberdade de imprensa.
Já os novos governadores chegarão reclamando dos rombos nos cofres públicos e pedindo cem dias para conhecer a máquina administrativa.
Lula, com habilidade, empurrou com a barriga a composição do novo ministério e segue subindo na aceitação popular. É possível que, na próxima pesquisa, o presidente atinja o limite da preferência. Depois, com o início do segundo mandato e o desagrado dos parlamentares desatendidos na distribuição dos cargos, a disputa política se acentuará e as divergências provocarão inevitáveis confrontos. Pode ser que Lula consiga agregar os líderes partidários e que esses controlem seus liderados apesar de a história não favorecer a hipótese; ao contrário, logo que o Congresso Nacional volte a funcionar, a necessidade de afirmação dos representantes do povo fará a diferença nas relações entre o Executivo e o Legislativo. A péssima legislatura que se encerra, e o não menos escandaloso executivo que se renova, é motivo de expectativa desfavorável para a solução dos problemas que o presidente imagina poder resolver.
Em Brasília, a vitória de José Roberto Arruda embala os mesmos sonhos depositados na eleição de Lula. São as esperanças dos desfavorecidos no desempenho do político que superou todos os percalços para governar a cidade que adotou como sua. Arruda fortalece os laços familiares, se volta com fé aos desígnios divinos e se entrega à missão de tornar realidade suas promessas. Lula também prometeu mundos e fundos aos eleitores e, num mandato, não conseguiu fazer o que queria. Atrapalhou-se com os companheiros e foi ao fundo do poço. Recuperou-se e, aí está, na solidão pessoal, disposto a formar um grupo completamente diverso dos seus princípios e tocar o projeto de, mudando a alma, formar um sonhado governo de coalizão.
As negociações conduzidas pelo senador Paulo Octávio passaram ao brasiliense a sensação de que teremos tempos de harmonia e progresso. As composições políticas para formar o governo seguem a mesma técnica usada por Lula: agregar políticos de todas as vertentes para consolidar a nova administração. As promessas de campanha deverão ser reavaliadas e colocadas nas dimensões adequadas para que não frustrem os eleitores que acreditaram na possibilidade do acesso ao emprego, à saúde, educação e segurança. Na área econômica, o governador eleito já demonstrou que vai ficar de olho nas finanças ao entregar a chave do cofre dos dinheiros públicos a um gestor probo e experiente, acreditando que poderá fechar os ralos que sugam os impostos pagos com sacrifícios pela população. Se Arruda superar as dificuldades nas relações com a Câmara Legislativa, é razoável supor que sua gestão será melhor do que o primeiro governo de Lula, pois não tentará a reeleição e nem terá ao seu lado companheiros ávidos em enriquecer, violar sigilos, preparar dossiês, provocando graves danos à imagem do presidente. O sofrimento de Lula e a experiência adquirida em quatro anos de mandato poderão ajudá-lo nos novos tempos, apesar de não ter se livrado de muitos dos velhos companheiros que lhe infernizaram a vida. Arruda não carrega penduricalhos inconvenientes e já espantou seus fantasmas. Seu tempo é, verdadeiramente, novo. Mas isto é futuro e o que importa, neste momento, é o desejo de que tudo dê certo para os escolhidos para nos governar.
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