Na carona do refrão das Casas Bahia, o presidente Lula demonstrou como pretende enfrentar seus adversários nas eleições; em vez de perguntar quanto se deseja pagar para adquirir um bem, o candidato poderá inovar, indagando quanto terá que pagar para ser reeleito.
Depois da descoberta dos meios escusos utilizados no controle da política pela quadrilha apontada pelo procurador-geral da República, imaginava-se que nada mais pudesse surgir no emaranhado em que se transformou a vida pública nacional.
O presidente, de forma inusitada, compareceu à inauguração do novo centro de distribuição da maior rede de venda a varejo do País. Em seu discurso de 22 minutos, Lula insinuou sua candidatura à reeleição e abriu o coração na promoção das vendas do anfitrião. É reconhecida a eficiência do proprietário das Casas Bahia nas vendas para a parcela da população que não pode comprar eletrodomésticos à vista. As promoções da empresa lotam suas lojas, fazendo a alegria do povo e dos vendedores. As prestações em 24 meses, com parcelas de valores mínimos, fidelizam a clientela que, a cada prestação paga, pode comprar um novo bem. É o círculo vicioso da dívida perpétua, tal como o empréstimo consignado que levou milhares de aposentados e pensionistas ao interminável compromisso de viver com parcos rendimentos e ainda ter que suportar o desconto em folha correspondente ao empréstimo oferecido com tantas facilidades que acabam convencendo os pobres das maravilhas de uma viagem paga em suaves parcelas. Na volta do passeio, a constatação do erro; aí, então, já não adianta chorar pelo leite derramado. É como votar num sonho e viver um pesadelo.
É difícil compreender como um operário, que tanto lutou para chegar à presidência da República, se pronuncie publicamente a favor da corda no pescoço do povo. Disse Lula: - "Obviamente que a parte mais pobre da população, quando pega R$ 1 mil emprestados, não vai comprar dólar para guardar ou não vai emprestar a juros. A pessoa vai comprar uma roupa, uma camisa, um sapato, uma televisão, um rádio. E quanto mais tempo a gente der de prestação, e quanto mais barata for a prestação, mais as pessoas vão poder comprar, porque no meio da parte mais pobre da população eles não têm a preocupação se vai custar cinco ou seis vezes a mais. Eles querem saber se podem pagar uma prestação, eles querem saber se é possível dividir e conseguir pagar um pouquinho a cada mês." A afirmação contradiz tudo o que tem dito Lula com relação ao pagamento da dívida ao FMI e à sua luta pela estabilidade da economia nacional. O pagamento de prestações em valores mínimos, mesmo que o preço final do produto seja cinco ou seis vezes mais, é um absurdo. Só quem vive há anos recebendo favores ou rendimentos sem trabalhar pode imaginar que a maioria dos trabalhadores poderá suportar, indefinidamente, dívidas de bens de consumo.
Com a opção de Lula pelos mais pobres e usando os métodos alardeados pelas Casas Bahia, o presidente poderá prometer que, no próximo período de governo que acredita lhe será renovado, o pagamento do “mensalão” poderá ser administrado por sistemas mais eficientes como adicionais por votação depositados de forma legal diretamente nas contas dos parlamentares, ou, então, carnês resgatáveis a cada sessão de absolvição de aliados. O controle poderá ser realizado por empresas especializadas na concessão de empréstimos, e os valores pagos isentos do imposto de renda. As promessas, tais quais as da campanha passada, deverão ser concretizadas por intermédio de medidas provisórias mandadas ao parlamento no primeiro dia de governo. Não será difícil formar maioria com propostas tão claras e seguras. Lula, recebendo novo crédito e sendo julgado pelo povo, não terá dificuldades em conseguir o seu intento. O único problema é que terá que administrar, pessoalmente, o novo sistema de cooptação, correndo o risco de ser, também, julgado pela Justiça.
Paulo Castelo Branco é advogado.
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