09.09.2010
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A casa da luz vermelha

Publicado 08.12.2009
paulo castelo branco 180 2-6

Sexta-Feira, 27 de novembro de 2009. A manhã, apesar de nublada, prenunciava um belo dia. A ciclovia da Península dos Ministros, no Lago Sul, estava repleta de caminhantes como se tivesse sido transferido para as margens do lago o Caminho de Santiago de Compostela. Muitos que ali caminhavam não pensavam em se redimir de pecados, ou ter a ajuda do santo milagroso na superação dos obstáculos que surgem na trajetória da vida. Buscavam só o encontro com a natureza: o canto dos pássaros, os saltos dos peixes formando círculos, os barcos com suas velas enfunadas, as lanchas rápidas rebocando jovens em acrobacias incríveis e, no chão, pedaços de madeira e plantas que caem pela força das águas e dos ventos.

A troca de cumprimentos, o sorriso simpático da talvez candidata, os amigos ou adversários convivendo harmoniosamente em nome da democracia e da beleza de viver.

Ao longe, a sede da ASBAC, onde se vê, com destaque, as amplas janelas do restaurante Dom Francisco. O desejo de olhar de lá para cá, renova a vontade de rever amigos. O almoço começa a ser planejado; o telefone é acionado e, em minutos, o convite é aceito por todos; ou quase todos. Alguns já firmaram seus compromissos, e outros estão fora da cidade em virtude do feriado evangélico da segunda-feira, dia 30.

A surpresa, ao chegar à ASBAC, é uma exposição que se destaca no hall de entrada. Artistas expõem seus trabalhos, embelezando a área com a expressão dos seus sentimentos. Os amigos já estão acomodados à mesa de frente para a vista da ponte majestosa criada por Oscar Niemeyer. Todos elogiam a idéia de retornar ao Francisco. A visão do Pontão do Lago Sul é igualmente encantadora.

Affonso Heliodoro, no vigor dos seus 94 anos de idade, comanda a mesa. Aos poucos vão chegando os demais companheiros. Carlos Magalhães chega tranqüilo, e fica perplexo ao olhar para as águas que viu subir até atingir a cota mil; – As águas vão rolar, diz com um sorriso de Mona Lisa. Silvestre Gorgulho, secretário de Cultura, chega com volumes de livros e fotografias de encontros passados. O jornalista Ronaldo Junqueira, em outra mesa com o pioneiro Marquinhos, se aproxima para cumprimentos. Tom Rebelo traz notícias da Espanha e seus projetos de solução para o caos do trânsito de Brasília. Outro secretário, Alírio Neto, que igualmente aproveita instantes de mansidão, se acerca da mesa para abraçar Affonso Heliodoro. São momentos de gratidão à terra prometida que nos alimenta de mel.

Mas, as coisas boas não se encerraram nas conversas. Até então o ambiente era dos prazeres do vinho e das carnes preciosas da cozinha do Francisco. Kazuo Okubo, o artista fotográfico ainda nos ofereceria imagens surpreendentes na sua “A Casa da Luz Vermelha”. Invadimos, sem mandado, as instalações do estúdio de Okubo. É inacreditável o que as imagens transmitem aos olhares. Palavras não conseguem exprimir com exatidão a força das paisagens e das pessoas que surgem sob as lentes implacáveis. No acervo permanente, os artistas retratam fisionomias suaves, firmes, alegres ou tristes. São flagrantes da vida; imagens surpreendentes.

Chegada a hora da sobremesa, do café e do licor tradicional, o restaurante já estava quase vazio. Preparávamo-nos para sair, quando uma nuvem negra surgiu no horizonte. Vinha sobre a ponte branca de Niemeyer. Logo cobriu o Pontão e seguiu até se encontrar com as vidraças. Parecia que o dilúvio faria transbordar o Lago Paranoá; o lago que políticos de oposição afirmavam que nunca atingiria a cota mil. Nós, velhos candangos, ficamos perplexos, observando a força das águas que caiam do Céu. Parecia que a chuva vinha para lavar a cidade. Não era uma chuva como a que nos assolam há algum tempo e fora de época. Eram águas arrasadoras. De repente, a luz vermelha de perigo se acendeu.

Aliás, a Casa da Luz Vermelha é um estúdio de fotografias, e a luz vermelha se refere à luz usada nas salas de revelação de filmes fotográficos. Só isto. Nenhuma conotação com atividades escusas.  

Talvez, nesta sexta-feira, voltemos a nos reunir em algum restaurante da cidade para alimentar o corpo e alma, esperando, com licença do poeta, que a tempestade deste fim de novembro seja a antecipação do verão e traga promessa de vida aos nossos corações.

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