No decorrer dos tempos, cada um de nós conhece histórias de meninos ou meninas que sonham com coisas que achamos absurdas, mas que fazem parte da vida das famílias. Conheci alguns, um deles, o Júlio que, desde a infância, desejou ser pipoqueiro. Na adolescência, montou pequena banca, na qual mantinha uma velha panela sobre um fogareiro a gás, conseguido com a ajuda dos familiares que fizeram “vaquinha” para se livrar do assédio que o garoto fazia a qualquer visitante que se aproximasse da residência. Conseguiu ganhar algum dinheiro com o trabalho e, durante dois meses, aos sábados, pegava o ônibus e ia ao shopping onde passava horas nas máquinas de videogame; no final da tarde, assistia a filmes de aventura com uma lata de refrigerante de um lado e um saco gigante de pipocas no outro. Aos que criticavam o fato de comprar pipocas sendo vendedor do produto respondia no ato: – As pipocas que preparo e vendo são para alegrar a vida dos outros. Essas, são para satisfazer a minha alma, são deliciosas.
O menino de então não se transformou num empreendedor da área de alimentação. O que aprendeu na produção da pipoca – e que lhe serve muito na carreira que abraçou, odontologia – foi que o piruá é duro e pode quebrar a dentição. Da pipoca só lembra quando precisa sair pipocando, de clínica em clínica, socorrendo seus pacientes.
Outro é o Marcelo, garoto estudioso e bom de bola, que sonhava ser lixeiro. Bastava o caminhão de lixo se aproximar da quadra que o menino abria o berreiro, querendo acompanhar a difícil e extenuante atividade dos que, diariamente, aliviam as cidades dos restos que dariam para suprir milhões de seres carentes e que são descartados sem cuidados. Marcelo via nos trabalhadores a coragem de seguirem pendurados nos imensos caminhões com os corpos balançando, e o desprendimento em cumprir a respeitável missão.
O jovem, hoje quase adulto, já não deseja seguir a profissão, a vida deu-lhe melhores condições e estudo que poderão servir para, não só cuidar das outras pessoas, mas também como desenvolver tecnologias de melhor aproveitamento dos resíduos que encobrem nossas cidades e prejudicam o meio-ambiente. Ele se prepara para ser biólogo.
A Dolores não era diferente. Queria ser médica. Vestia-se de branco, óculos sem lentes, chapéu, e ficava horas dissecando pequenos animais que dizia operar. Certa feita, ganhou um pequeno hamster no dia do seu aniversário. Não largava o animal para nada, até quando ia tomar banho, lá estava o Hugo, nome que deu ao bicho. Dava-lhe banho, alimentava-o com cuidados de mãe. À noite, num cantinho ao lado da sua cama, o colocava para dormir e o cobria com pedaços de pano. Mesmo com tantos cuidados, Hugo caiu no ralo da casa e, para ser retirado, sofreu ferimentos. Um deles, profundo e dolorido. Dolores decidiu operá-lo com a experiência que imaginava possuir. Preparou seus apetrechos e, com uma lâmina de barbear, fez uma incisão no ponto que lhe pareceu adequado. O sangue jorrou, o animal estrebuchou e morreu em suas mãos. Dolores desmaiou assustada por não ter conseguido salvar o amigo.
A imagem do bichinho se esvaindo em sangue afastou a menina de qualquer outra profissão que lidasse com a vida de qualquer ser. Dedicou-se ao estudo da economia e fez carreira. Ao se formar com destaque numa universidade nacional, foi escolhida, dentre muitos formandos para fazer pós-graduação no exterior. Foi e nunca mais voltou, não se soube mais nada sobre ela; a não ser, recentemente, com as notícias do desastre financeiro das maiores economia do mundo. Não estava muito mudada desde o dia da cirurgia de Hugo, quando apareceu na televisão explicando as razões sobre a má condução do banco que presidia. Olhos rodeados de manchas roxas, cabelos desgrenhados e assustada, muito assustada. Os amigos de infância acharam que não adiantou muito desistir dos sonhos; ela continuou transformando sonhos em pesadelos.
Com Dilminha as coisas foram diferentes. Sempre foi uma menina agitada e decidida. Queria ser bailarina. Disciplinada e meticulosa, aos dez anos, foi matriculada na escola de dança clássica do bairro. No primeiro dia, reclamou que a professora de balé era incompetente e dispersiva. No segundo dia, determinou que duas coleguinhas que não acompanhavam os exercícios, aguardassem o término de sua série num canto do salão. As meninas a obedeceram.
Não realizou o sonho. Seguiu os caminhos da política e subiu nos palanques das campanhas. Por ironia do destino, formou pas-de-deux com um parceiro que, também, não realizou os sonhos de menino. Agora, vive nas pontas dos pés tentando acompanhar as piruetas que lhes são exigidas. Se não conseguir manter-se de pé, ao contrário do esperado, vai dançar.
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