A crise que se abate sobre o jogador Adriano, do Football Club Internazionale Milano, é uma daquelas que enchem as bocas dos aficionados do velho esporte bretão, como falavam os entendidos, nas discussões das arquibancadas abarrotadas do Maracanã.
Naqueles tempos, Didi, o “folha seca”, encantava o estádio com a sua malemolência e passes longos. Didi também vivia dramas, e a turma das gerais puxava o refrão: Guiomar, Guiomar, Guiomar..., pedindo a interferência da companheira do craque para incentivá-lo a deixar de lado a preguiça e jogar futebol. Ele ficava no meio do campo ciscando fingindo não se incomodar com as vaias que se seguiam. Logo, num lance genial, a bola estava nos pés do atacante que fuzilava o goleiro. A crise passava.
Não é de hoje que os jogadores brasileiros, a maioria nascidos e criados nas periferias abandonadas das cidades, desprovidos da assistência familiar ou institucional, meninos ainda, habilidosos, são descobertos por empresários que abrem os caminhos nos clubes e os transformam em fonte de ganhos ilimitados. Esses ganhos chegam acompanhados do glamour da vida noturna, do assédio, e das escapadas não mais inocentes como as da seleção de 1958 que abriu caminho para a fama de centenas de jogadores de futebol pelo mundo afora. Na Suécia, são célebres as histórias sobre os campeões e seus envolvimentos com as louras de olhos azuis, hoje acusadas, injustamente, da crise econômica. Até o Garrincha, com suas pernas gloriosas e sua origem, lá gerou um filho.
O momento que afeta o nosso Imperador não é uma crise como a que viveu Napoleão Bonaparte que, derrotado, foi confinado para curtir sua tristeza na Ilha de Elba. Felizmente Adriano pode circular livremente pela sua ilha de alegria na Vila Cruzeiro, na Penha, no Rio de Janeiro. Não voltou para lá pela força. Voltou em sua camionete importada, blindada, de pneus largos e tração 4x4, que facilita seu acesso até os píncaros do morro.
Também eu vivi algum tempo naquela comunidade. Foi durante dois anos do curso primário na Escola Municipal Monsenhor Rocha. Apesar do tempo passado, guardo boas lembranças daquele período. Recordo das aulas, de alguns rostos esmaecidos, da professora dedicada e respeitada, e da diretora rigorosa, mas afável. Quase vejo o fiscal do pátio, o dentista semanal, as vacinas, a hora da merenda e as festas cívicas com o hasteamento da bandeira nacional. Ouço, quase sumido, o hino pátrio cantado em todas as suas estrofes, diferente dos arranjos ditos modernos que invadem as cerimônias.
Nessa época, os subúrbios já tinham o seu Imperador; era o cinema majestoso do Méier que nos enchia de desejos de, um dia, assistir à matinê de domingo. O Imperador ficava no caminho para o centro da cidade, e nós, meninos, ficávamos aguardando o ponto de ônibus que nos permitia ler os cartazes dos faroestes recém-lançados.
Hoje os filmes de mocinhos e bandidos saíram das telas para a realidade. Não temos mais os xerifes com seus chapéus, suas roupas de couro e seus revólveres reluzentes, lutando para afastar os arruaceiros das cidades.
Éramos meninos brincando tranquilos pelas vielas do morro sem perigo de balas perdidas, a não ser as distribuídas no dia de Cosme e Damião. Agora, depois de aparecer um tal de Alemão, a vida dos moradores se transformou num inferno.
O complexo do Imperador Adriano pode ser curado com algumas medidas que o farão o verdadeiro benfeitor da Vila Cruzeiro, é só ele deixar de lado os temores que o afligem e aplicar os rendimentos dos 50 milhões de euros, que dizem ser a sua fortuna amealhada nesses 10 anos de futebol profissional, na formação dos meninos que sonham sair da pobreza e da violência. Não será difícil para Adriano pedir ajuda na administração dos seus recursos a brilhantes economistas como Armínio Fraga, Gustavo Franco, Pedro Malan, Henrique Meirelles ou do rubro-negro Carlos Langoni, para transformar o seu complexo em vidas; e, ainda mais, arranjar uma vaga de reserva no Flamengo, até recuperar a posição para atender ao pedido de sua avó.
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