Havia duas semanas que Jeremias não saia de casa. Com as notícias correndo mais que maratonista queniano, achou melhor fazer umas arrumações no telhado de vidro que colocou no alpendre, há mais de 10 anos, quando exerceu o seu primeiro mandato de vereador. Lembrava bem como as coisas começaram a mudar na sua vida. De família humilde, tinha como missão levar numa carroça os legumes produzidos na pequena propriedade de seu pai até à cidade.
Primeiro vendia os melhores produtos para as pessoas ricas; depois, os amassados para os que não possuíam muitos recursos; por último, doava aos carentes as sobras. Sua conduta social adquiriu o respeito da população da cidade. Após o trabalho, se lavava numa torneira, trocava a roupa pelo uniforme escolar e corria para o almoço oferecido aos alunos menos favorecidos. Prestava atenção aos ensinamentos e cumpria suas tarefas com afinco.
Aos dezoito anos, acabou o segundo grau e desejou sair para um grande centro e cursar uma faculdade. Queria ser médico.
Aderbal, líder político local, o chamou para uma conversa: – Tenho um lugar para você ser candidato a vereador nas próximas eleições. Jeremias, estudioso e observador, pediu um tempo para dar a resposta e foi consultar seus parentes. O pai disse que não podia prescindir do seu trabalho e que ele continuasse os estudos ao invés de se dedicar a uma campanha que poderia ser derrotada. A mãe ficou do lado do pai e reforçou a intenção dele seguir o caminho do estudo em outra localidade. Os avós e os irmãos firmaram a posição dos pais, com exceção de Júlia, a irmã mais nova que disse que a política era o melhor caminho para a transformação de um povo. Ela cursava o ginásio e se destacava nos debates estudantis.
Jeremias pensou durante dias sobre a resposta que deveria dar ao líder; afinal, depois de consultar os fregueses, sentiu que poderia obter os votos necessários à vitória. Foi o que fez.
Decidido a só pensar em faculdade depois das eleições, dedicou-se à campanha. O povo adorou as frases que usava pregadas na carroça: “Já almoçou hoje? Os legumes estavam frescos? Lembre-se que foi o Jeremias que trouxe”. “Tá com fome? Jeremias acaba com ela”.
Com o passar dos dias, os eleitores começaram a fixar frases nas janelas das casas sempre fazendo uma ligação entre o alimento e o candidato Jeremias. A campanha tomou tanto vulto que até jornais de outras cidades faziam referência a espontaneidade dos cidadãos na aceitação do nome do carroceiro.
No dia das eleições o resultado não poderia ser outro: Jeremias eleito como o vereador mais votado. A família adorou. O alfaiate prometeu o terno da posse. O fazendeiro deu-lhe um cavalo quarto-de-milha campeão. O arreio veio do dono do armazém. Dr. Berlusconi, pediatra, garantiu-lhe os livros para a faculdade de medicina. E Rosinha, a filha do farmacêutico, piscou para ele na hora do discurso. Foi um olhar tão profundo que Jeremias, pela primeira vez, gaguejou, mas fez a declaração que guardava no fundo do peito: – Dedico esta vitória a Deus, à minha família, ao povo da minha terra e à Rosinha, amor da minha vida. Foi ovacionado.
Tomou posse e foi eleito presidente da Câmara de Vereadores. Não sabia nem o que fazer com o cargo. Aderbal, o líder, chegou com a própria nomeação como chefe de gabinete. Assinou. No dia seguinte, uma camionete parou à sua porta para levá-lo ao trabalho. Como morava distante da Câmara, recebeu as chaves de uma casa na praça central. Nas eleições para deputado federal, dois anos depois, lá estava o seu nome com destaque. Foi eleito e empossado. Casou-se com Rosinha e teve dois filhos. A capital era distante, e Rosinha ficou para cuidar das crianças.
Jeremias recebeu um apartamento funcional e foi aprovado no vestibular para medicina da faculdade pública que cursou pela manhã - às vezes. Já estava gostando das regalias que obtinha no exercício do mandato: passagens aéreas que não usava, pois em sua cidade não havia campo de pouso, as trocava por outros benefícios: auxílio médico, transporte, empréstimos subsidiados, mil e uma vantagens para fazer o seu trabalho social e político.
De repente tudo mudou. Por causa de uns porcos, ele e seus colegas, culpados ou não, foram jogados numa pocilga infecta. Ficou sabendo de uma gripe que só passava de porquinho para porquinho quando um deles espirrava. Lembrou-se dos conselhos de seu pai para que não se metesse com política, pois, dizia o velho, quando aparece um vírus do mal, espirra em todo mundo.
No feriado, com a família, foi ao shopping. Estavam com os rostos cobertos por máscaras cirúrgicas e felizes por não serem reconhecidos. Jeremias pensa em apresentar um projeto de lei obrigando o uso definitivo das máscaras nas sessões televisionadas.
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