Estava lá, no quadro de avisos da fábrica, o texto do projeto que garante estabilidade no emprego para os maridos de funcionárias grávidas. No cafezinho, os trabalhadores comentavam as vantagens do projeto e aplaudiam o seu autor.
– Finalmente um parlamentar pensou nos homens. Há anos que só sai lei para proteger as mulheres, e nós aqui ó, sifu, como falou o presidente, disse Josué.
Nos corredores da empresa o assunto era a crise econômica e a possibilidade do corte de postos de trabalho. Cada um dos trabalhadores tinha uma história para contar. Romildo, chefe de seção, relatou que o gerente RH de uma indústria vizinha, durante o jogo de futebol do sábado, disse que lá eles iriam demitir 30% dos funcionários. Isto representava cerca de 90 empregos. Na nossa empresa, parece que depois das férias coletivas, serão demitidos, também, 30%. Parece que a medida será tomada por todos os setores produtivos.
– Eu não quero nem saber, disse Lívio. Hoje mesmo vou falar com minha mulher para encomendarmos um novo filho e garantir nosso futuro enquanto a “marulinha” estiver entre nós. É uma grande vantagem, olhem só: Com minha mulher grávida, ela terá direito a seis meses de licença maternidade. Eu, pela nova lei, não poderei ser demitido durante um ano, contados do último dia da gravidez. Só aí, são 21 meses de garantias.
– É, mas do jeito que as coisas estão andando, é possível que as empresas não suportem as dificuldades e, afinal, venham a quebrar, provocando muito mais desemprego e dificuldades. Tá difícil, falou Pedro, funcionário há mais de dez anos, pai de um casal de crianças, e considerado o mais ponderado de todos os colegas.
Pedro já defendeu algumas teses nas reuniões do sindicato. Uma delas sobre o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, num seminário sobre o futuro das relações entre empregados e empregadores. Provocado por algumas colegas, ele subiu à tribuna e argumentou que as mulheres, ao disputarem as vagas em igualdade de condições com os homens, provocaram um problema que ultrapassou a barreira da família e afetou a toda a sociedade.
– É assim, começou Pedro. – A entrada das mulheres no mercado de trabalho empurrou os homens para o desemprego. Antes, elas ficavam em casa criando os filhos, educando, e controlando o desenvolvimento das crianças. Durante esse tempo, muitas estudavam e se qualificavam para novos caminhos, após a entrada das crianças no ensino primário. As que não desejavam trabalhar fora, se dedicavam a pequenos serviços cujo resultado servia para completar o salário do companheiro. Isto aconteceu com minha avó, minha mãe, meu avô e meu pai, que também foram operários na mesma empresa em que trabalho. Tinham a obrigação de conseguir o dinheiro suficiente para sustentar a família. Agora, vocês mulheres que são, sem dúvidas, muito mais competentes, dedicadas e organizadas do que nós homens, ocupam funções em atividades pesadas, deixam os filhos nas creches, e recebem salários menores. No futuro, acredito, voltaremos aos tempos passados, até mesmo porque se não o fizermos teremos menos filhos e não haverá trabalhadores suficientes para pagar as aposentadorias dos que, durante anos, contribuíram para a previdência. Isto já acontece nos países desenvolvidos, nos quais os governantes pagam para que os casais tenham mais filhos.
No salão foram ouvidas vaias e aplausos. Pedro não se incomodou, estava feliz por ter conseguido expor seu pensamento.
No dia seguinte, no café da fábrica, o assunto era a história de Pedro que não queria ver mulher trabalhando. Muitas colegas concordaram que antigamente era muito melhor para formar família, criar os filhos e viver em paz.
No canto dos homens a história era diferente. Uns diziam que as mulheres podem desempenhar as atividades de mães e trabalhadoras com facilidade. Outros, machistas, afirmavam que a questão era simples de resolver; bastava que as mulheres voltassem a obedecer aos homens que tudo ficaria bem. A conversa só se encerrou quando Arlindo, o grande gozador da empresa, alertou para o perigo que estariam correndo aqueles machistas incorrigíveis. – Não se esqueçam de que o empregador poderá exigir exame de DNA para saber quem, na verdade, é o pai da criança e possui o direito de não ser despedido. Pode dar o maior rolo.
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