No Natal do ano passado, mais um bebê foi deixado em um orfanato numa cidade do interior. Não havia completado um mês de vida. Trazia no corpo as marcas do abandono. Os olhos negros eram opacos e assustados. Envolto numa manta, recebeu o calor dos braços amigos de uma voluntária.
Na noite do Natal em que se comemora o nascimento de um bebê que veio ao mundo para salvar a humanidade, a criança não se alimentava do leite materno. O frio intenso e a solidão em nada se parecia com a alegria dos Reis Magos que chegavam para render homenagens ao Filho de Deus. As oferendas ao menino Jesus significavam que, até os reis se curvavam ao poder do rebento.
E o nosso bebê? Este não possuía nada, nem ninguém. Mas, naquela noite, tal qual o menino da manjedoura, recebia o carinho de braços anônimos garantindo que tudo seria melhor no ano que se iniciaria dali a poucos dias.
Os primeiros meses no orfanato não foram diferentes da vida dos demais companheiros. Alguns ali chegaram pelas mãos calejadas do trabalho estafante e da impossibilidade de mantê-los com dignidade. São os das mães solteiras expulsas dos lares paternos pela incompreensão e intolerância. Outros chegam nos braços de bombeiros que os recolhem nas ruas e são filhos do desespero, da loucura ou das drogas. Todos esperam uma família que os acolham e lhes mostrem que também são filhos de Deus. Talvez nenhum receba o nome de Jesus, mas muitos serão batizados de Maria ou José, os pais do Filho de Deus. Outros, orgulhosamente, serão Pedro, Paulo, Mateus, Simão, Bartolomeu, Tomé, Felipe, Tiago, João ou André. Judas Iscariote ninguém será, mas de Tadeu muitos serão batizados. As meninas, além de Maria, poderão ser Madalena, a fiel seguidora do Senhor.
Os dias passarão, e cada um dos voluntários escolherá chamar as crianças pelos nomes que lhes aprouver. Os registros de nascimento, se não chegarem acompanhados da certidão, só valerão até a adoção, quando os novos pais poderão batizá-los e registrá-los definitivamente.
Para eles, na tenra idade, pouco importa como se chamavam, todos são bebê, querido, fofura e outros tantos carinhos que recebem no tumulto do dia-a-dia de um orfanato. Raramente conseguem sair ainda recém-nascidos para os braços de uma família. O processo burocrático, necessário e criterioso, segue os trâmites da lei e dificultam que as crianças sejam destinadas a família sem o devido preparo para receber um filho que não gerou.
A determinação de adotar é um longo caminho a ser percorrido; não são os nove meses de uma gravidez. É uma gravidez sofrida, vendo a criança engatinhando à sua frente sem que se possa afagá-lo definitivamente. Quando acontece a mútua escolha, o coração bate mais forte, lágrimas percorrem a face e os novos pais sentem que aquele é o filho que sempre esperaram.
É o caso do personagem dessa história. É o Antônio, que neste Natal, assistirá as comemorações do Natal, recebendo as mesmas homenagens que o Filho de Deus. Ele chegou um mês antes do Natal, trazido numa carruagem puxada por renas e embrulhado numa manta vermelha que parecia ter sido obtida com Papai Noel. Os olhinhos ainda opacos e assustados.
No balcão do aeroporto, sendo chamado de Antônio, homenagem ao Santo, recebeu sua passagem com o nome de registro que os pais já esqueceram, pois, dentro em breve terá seu novo nome e documento com a inscrição definitiva da sua filiação. Os pais, confusos e inexperientes, confundiram-se na hora da apresentação dos documentos oficiais. A aeromoça, sorridente, disse-lhe que também era mãe adotiva e que era muito feliz.
Na viagem, Antônio aconchegou-se no colo da mãe e não chorou. O pai, solícito, agitava a mamadeira e o segurava com as mãos fortes, garantindo-lhe a segurança. A mãe, com as mãos meigas, produzia a sensação agradável de ternura que todas as crianças devem sentir.
Neste dia de Natal, mais um filho de Deus encontrou o seu caminho. Antônio está com os olhos negros brilhantes como jabuticabas molhadas pela chuva. Sua gargalhada ecoa pelos corredores da casa, e já inicia os primeiros passos. Ter filhos naturais é uma benção; adotá-los é desprendimento, é dádiva dos Céus.
Paulo Castelo Branco.
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