09.09.2010

Nódoas

Publicado 29.06.2010
paulo castelo branco 180 2-20

Não era lá essas coisas a ficha de Adroaldo. Na escola primária, ele sempre se destacou pelas perguntas impróprias e brincadeiras de mau-gosto. Quando acontecia alguma coisa inusitada na sala de aula, ele era apontado como o malfeitor. Se a culpa fosse sua, negava com ar de deboche. Se, ao contrário, não tivesse nada a ver com o fato, assumia a responsabilidade e se submetia aos grãos de milho no canto da sala, só para não ser superado por nenhum colega que estivesse interessado em ocupar o seu lugar de bagunceiro-mor.
Ao ginásio, o moleque chegou com três anos de atraso, e trinta centímetros mais alto do que os demais colegas. Além de mais alto, o rapaz pesava quase oitenta quilos. Nas discussões sobre alguma matéria, Adroaldo impunha as suas opiniões até aos professores, que já não tinham coragem de puni-lo por indisciplina. O medo imperava entre todos, pois, além de prepotente, o sujeito era agressivo e malvado.
Na faculdade, que o aceitou com restrições, Adroaldo se apossou do diretório acadêmico e se elegeu presidente vitalício, com mudanças no estatuto feitas com a ajuda de outros colegas, que falsificaram a lista de presença e concretizaram a tramóia. O grupo sabia que o mandato vitalício poderia durar anos a fio, pois bastava que o presidente não concluísse o curso.
No diretório, Adroaldo praticava atos arbitrários, promovia festas com cobrança de ingresso, desviava recursos do fundo universitário, agredia opositores com longos porretes, que empunhava nas reuniões estudantis. Era um crápula, diziam os colegas quando o presidente não estava por perto.
Finalmente apareceu alguém para enfrentar o indomável Adroaldo. Chamava-se Goberval e foi aprovado em primeiro lugar no vestibular. Franzino, cabelos ralos e óculos de grau. Com uma fala mansa e palavras bem colocadas, o calouro não aceitou o trote imposto por Adroaldo. Recusou-se a se submeter às humilhações e foi ao distrito policial da região, onde fez um boletim de ocorrência contra o presidente do diretório e a diretoria. Depois foi ao Ministério Público, renovou a acusação e pediu garantias cidadãs.
A imprensa procurou por Goberval, que não quis dar entrevistas enquanto não obtivesse uma posição objetiva das autoridades. Nas redes sociais surgiram manifestações de apoio a Goberval, e logo se formou uma avalanche de acusações contra Adroaldo. Vinham notícias de suas arbitrariedades desde a escola primária. Adroaldo, incrédulo, pediu ajuda de aliados para impedir que as coisas andassem contra ele. Procurou alguns asseclas que haviam se beneficiado das malandragens e iniciou uma contraofensiva no Twitter. Não deu certo. Em resposta às suas mensagens, no anonimato, milhares de pessoas se uniram para pedir a destituição do presidente do diretório e da sua diretoria.
Na delegacia de polícia, chamado a depor, Adroaldo desacatou o delegado e foi autuado. Ainda não havia se retirado, quando alguns fornecedores apareceram com cheques sem fundos emitidos por Adroaldo. A polícia verificou que vários cheques eram de contas fictícias e enquadraram o pilantra em mais um dispositivo legal. Enquanto policiais faziam a coleta de informações, outros buscavam a justiça para requerer a prisão temporária do falsário.
Adroaldo foi preso e solto dias depois por determinação judicial. Os inquéritos se transformaram em processos, e o denunciado nunca mais teve sossego. Vivia de tribunal em tribunal, tentando se livrar de uma condenação que poderia levá-lo à cadeia, para cumprimento de pena.
Foi expulso da faculdade. Nas eleições que se seguiram, tentou e conseguiu uma vaga de vereador apoiado pela marginalidade. No primeiro dia de trabalho foi levado, de camburão, para uma audiência judicial. No dia seguinte subiu à tribuna para reagir contra o que chamou de arbitrariedade. Gritava tanto que o presidente da Mesa desligou o alto-falante. Não se conformou e destruiu tudo o que estava por perto. Foi processado por falta de decoro e, antes de perder o mandato, renunciou. Candidatou-se na eleição seguinte e elegeu-se.
No discurso de posse, acusou a todos e a tudo. Reclamou das origens, dos pais, que não o educaram, da omissão dos professores que não o ensinaram, dos colegas de diretório acadêmico, que o abandonaram, da polícia, da justiça, dos governantes. Para finalizar, bradou que em sua ficha havia somente nódoas, nunca sujeiras que não pudessem ser removidas com uma boa lavagem. – De dinheiro? – perguntou, uníssono, o plenário.

Adicionar Comentário

Por favor seja educado(a).

( Use Markdown para formatar.)

( )

Ver mais...

Colunas

Links

Compromisso ético

"Independente das instituições a que nos filiamos, não podemos em nenhuma circunstância abrir mão do compromisso ético de informar."

- Vagner Lúcio, professor RJ
Mais Citações

Assinar