09.09.2010
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Penas alternativas

Publicado 24.03.2008
Paulo Castelo Branco-4

O cabelinho arrumado era o mesmo que trazia desde os bancos escolares. A cara de menino não abalava a fisionomia carrancuda do magistrado. Estava acostumado com aqueles ares inocentes que os réus apresentam quando estão à frente da Justiça.

— O que o senhor tem a dizer sobre as acusações que lhe são imputadas?
— Não sei de nada.
— Como não sabe de nada? O seu nome não é Sylvino Petralha? Sua identidade não é esta aqui?
— É sim senhor. No entanto, estão jogando sobre mim uma culpa que não deve ser minha. Eu só obedecia a ordens superiores e não posso ser responsabilizado por atos de pessoas que enfiavam a mão nos cofres públicos e, agora, tiram o corpo fora.
— Então porque o senhor está aqui?
— É uma injustiça, disse chorando.
O advogado interferiu: — Excelência, nós fizemos um acordo para que meu cliente seja beneficiado nos termos da lei. Ele reconhece a acusação de formação de quadrilha e o senhor aplica a ele uma pena de prestação de serviços à comunidade.
— O senhor confirma que deseja fazer acordo, e se livrar de uma pena de prisão?
— Sim senhor, desde que eu não tenha que acusar ninguém. Tenho muito medo.
— Medo de quê? Aqui o senhor está sobre a proteção do Estado e ninguém poderá ameaçá-lo de nada. Fique tranqüilo.
— Tenho medo de, acusando meus companheiros, vir a ser eliminado.
— Eliminado como? O senhor está me dizendo que seus companheiros podem eliminá-lo?
— Do partido, do partido, do partido, repetiu aos prantos. O juiz suspendeu a audiência por meia hora até que o réu recuperasse o controle dos nervos.

Sentado num banco próximo a uma janela, Sylvino recebeu um copo de suco de maracujá. Abriu o colarinho da camisa, afrouxou a gravata e respirou profundamente. Não queria estar ali, sonhava em sumir, abrir um restaurante italiano, e meter a mão na massa. Na massa mesmo e não na grana que caiu na sua horta depois que galgou postos no poder.

No banco, sentado, triste, sentiu que poderia se livrar de tudo com o reconhecimento de uma pequena parcela de culpa que, afinal, lhe cabia no total dos desmandos que sua turma praticara. Vou sair dessa fria e nunca mais me meto em confusão, pensou.

Recuperado, voltou à sala de audiência. O juiz mantinha a mesma fleuma.
— Podemos continuar? Disse o juiz. Sylvino respondeu que sim.
— E então, agora que o senhor já sabe o teor da acusação, relate a sua versão.
— Bem, desde menino que sonhava em possuir uma bicicleta de 18 marchas. Meu pai, sem recursos, me dizia que, se eu estudasse muito e conseguisse um bom emprego, um dia, talvez, pudesse ter até um carro. O emprego que arrumei era de examinar fichas de pessoas interessadas em trabalhar no governo. Era um trabalho quase burocrático. Olhava a ficha, confrontava com a inscrição partidária, verificava se o candidato pagava as mensalidades e se estava disposto a deixar 30% do seu salário para partido. Tudo acertado eu batia um carimbo e remetia a ficha para os escalões superiores que nomeavam ou não o companheiro. Era simples e objetivo. Se topava, entrava. Se não, estava fora.
— Só isso?
— Não. Um dia um sujeito bem trajado, e que havia estudado comigo no ginásio, me procurou perguntando se eu conseguira comprar a bicicleta. Eu respondi que não e que agora o meu sonho era possuir um jipe importado. Ele mandou entregar um lá em casa, a troco de nada. Fiquei embasbacado. E saí por aí sem lenço nem documento. Meu pai estranhou muito a minha história. Quando estourou o escândalo, devolvi o veículo e, agora, estou aqui para receber minha pena.

Dizem que sua sentença foi acompanhar a limpeza de esgotos sanitários. No primeiro dia de trabalho entrou em pânico. Mesmo não colocando a mão na massa, não suportou constatar que os operários retiravam dos esgotos os corpos sorridentes e algemados de alguns dos mais íntimos amigos de outrora. Correu para o Fórum em busca de uma sentença mais branda.

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“A Bíblia diz: 'Melhor é morar num canto do eirado, do que com a mulher rixosa numa casa ampla' (Provérbios 21:9 e 25:4) . Eu acrescentaria que, porém, é pior ainda morar com uma mulher rixosa num apartamento minúsculo. Pelo menos em uma casa ampla você pode dormir no quarto de hóspedes, e deixar a 'nervosinha' falando sozinha..."

— Dr.Tony Fontoura, Ph.D.

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