08.09.2010
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Quero morar na cidade da propaganda do governo

Publicado 13.12.2009
paulo castelo branco 180 2-7

Com os cariocas ocupados em sobreviver na guerra que lhes é imposta pela inoperância de governos sucessivos, os baianos vão ocupando o espaço de povo alegre e gozador. Com seus cantores frenéticos e suas cantoras colocando mais baianinhos no mundo é de se prever que, daqui a pouco, Salvador será a capital da felicidade.

É de um baiano o maior sucesso na internet. Trata-se de um samba divertido no qual o cantor fala da propaganda do governo que só mostra as maravilhas do estado. A letra do samba diz que se tudo é tão bom, ele quer morar na propaganda do governo. A observação do artista serve para todos os estados e, até mesmo para o Brasil. A técnica da utilização de propaganda intensa para mostrar as obras de governos se ampliou depois de Hitler controlar com mão de aço a comunicação de sua trágica e repudiada passagem no comando da Alemanha.

Nossos governantes aprenderam a técnica e usam os recursos públicos, mostrando os seus relógios e as vantagens que possuem, retratando as cidades como se elas fossem o paraíso. Dá mesmo vontade de morar na propaganda do governo.

Um dos melhores filmes da temporada é “O menino de pijama listrado”. Conta a história de um garoto, filho de oficial nazista comandante de um campo de concentração na 2ª Guerra Mundial. O menino, sem compreender a gravidade das funções do pai, sai em busca de contatos com outras crianças, até encontrar um menino confinado no campo de prisioneiros. A história é triste. Numa das passagens, Bruno, o personagem, assiste do alto de uma estante, a propaganda nazista sobre o campo de concentração que conhece. É tudo diferente da miséria que compartilha com seu amigo judeu. No filme, os judeus aprisionados aparecem como se estivessem numa colônia de férias, completamente diferente da realidade.

Nos nossos tempos, a técnica continua a mesma. É claro que os governantes não irão mostrar as mazelas e as desgraças que nos assolam; no entanto, a prática da publicidade diária e insistente só serve para o desvio de recursos que poderiam ser aplicados em melhorias para a população. É verdade que muitas obras estão sendo desenvolvidas, e que é preciso que o povo saiba, mas não há necessidade da sucessão de anúncios sobre as mesmas coisas. É dinheiro saindo pelo ladrão.

Nos filmetes as ruas são seguras, limpas e iluminadas. As escolas ocupadas por alunos disciplinados e estudiosos; os professores, dedicados e preparados. Os hospitais com equipamentos modernos e pessoal treinado. As delegacias e quartéis com profissionais competentes, bem remunerados e prontos para defender a população com a própria vida. Os governantes estão felizes com a administração em benefício de todos e não pensam somente nas próximas eleições. Estão sempre sorrindo, não perseguem adversários, fazem tudo pelo povo, como se estivessem fazendo pelos seus familiares.

E propaganda é ruim? É claro que não, a publicidade é a alma do negócio, e a brasileira, respeitada como uma das melhores do mundo. Uma coisa é usar recursos públicos para o bem da população, outra é impingir aos cidadãos imagens que todos sabem que não representam a realidade do dia a dia do cidadão.

Quero ser como o cantor da Bahia; quero morar na cidade da propaganda, de qualquer estado ou país. Como tudo é ficção, fico com medo de regredir no tempo e aparecer no campo de concentração do menino de pijama listrado.

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