04.09.2010

VIRA-LATA

Publicado 12.12.2008
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Emília, a filha mais velha, é alérgica a pelos. Eduardo, o filho do meio, adora cães. Até o ano passado, Valéria e Ricardo, os pais, conseguiram controlar a questão, alegando a impossibilidade de adquirirem um animalzinho, em virtude da alergia que afeta Emília.

Rick Júnior, o caçula, que só se interessava por mamadeiras e chupetas, aderiu ao pleito do irmão, e as coisas se complicaram. Valéria, a mãe, foi criada em casa com grande área verde e repleta de bichos, e não faz nenhuma restrição à criação de animais. Ainda não tinha um ano idade e já montava um labrador caramelo. Alimentava Bituca com seus biscoitos amanteigados e se lambuzava de chocolates que dividia com a larga boca do companheiro de brincadeiras. Do tio Pedro,  ganhou uma tartaruga que disparava quando via a menina pronta para deixá-la esperneando de barriga para cima. Pelo quintal, passaram dois pôneis, uma cabra com seu cabritinho que já estava acostumado a disputar com Valéria seu alimento. Isso mesmo, era preciso atenção redobrada para não deixar a criança mamar na cabra.

Ao longo da infância e da adolescência, a casa foi habitada pelo Tizil, um vira-lata negro que se tornou símbolo da amizade entre o homem e o cão. Morreu de velho com todo o apoio e tristeza da família. O pastor alemão Greg seguia a menina até a porta da escola e se acomodava sob uma árvore perto da sala de aula. Não saía dali enquanto o sinal não tocasse, encerrando o turno da manhã. Voltavam juntos, caminhando, pelas ruas seguras de antigamente.

Os vizinhos, naquele tempo, distantes, não se incomodavam com os latidos dos cães, os miados dos gatos, o glu, glu, glu do peru, ou o canto madrugador do galo. Valéria viveu feliz.

Ricardo, criado em cidade grande, não teve nem um cachorro como companhia. É verdade que dizia ser dele um dog alemão de nome Fred, que morava na casa da avó. Seus amigos foram as bicicletas, os patins, a bola de futebol. Na adolescência, trocou tudo pela prancha de surf. Adulto, tornou-se praticante de vôo-livre. Não fazia restrições a animais, mas não tinha por eles nenhuma atração e, de alguns, tinha medo de arrepiar os cabelos. Não sabia explicar a razão da aversão e nem tentava. Quando via um cachorro, atravessava a rua.

Por causa da alergia de Emília, combinou-se que, em casa, nada de animais. Agora, Eduardo, Rick e Valéria se juntaram na tentativa de dobrar o pai e a irmã na compra de um cachorrinho. Ricardo foi contra.

Durante semanas, a campanha a favor de McCão – este o nome escolhido pelas crianças – tomou conta da casa. Faixas com a frase “Sim, nós podemos” foram afixadas nos móveis e até no espelho do banheiro. Pequenos adesivos, produzidos no computador, surgiram nos pires da xícara de café, e uma manchete sobreposta na primeira página do jornal. Emília, a alérgica, submeteu-se à vontade da maioria e apoiou a campanha de McCão.

Outro dia, após o jantar, sentados a frente da televisão, assistiram às primeiras palavras do presidente eleito dos Estados Unidos. O homem tinha o mesmo problema e falou sobre a questão perante milhões de pessoas de todas as nações do mundo. Ele afirmou que, se vencesse as eleições, iria dar um cãozinho para suas duas filhas. O cachorro deveria ter pelo curto e ser resistente. Disse, em tom de brincadeira que teria que ser um vira-lata, como ele, o presidente.

As crianças perceberam a oportunidade e se animaram com a ajuda inesperada. Eduardo, pulando no pescoço do pai pediu que fossem comprar, no dia seguinte, o McCão que estava reservado numa petshop das redondezas. Ricardo reagiu alegando que ainda faltavam 70 dias para o presidente cumprir o prometido. – Vamos aguardar. Se ele cumprir a promessa de campanha, eu também arranjo um cachorro, de pelo curto e vira-lata.

Brasília, 12 de novembro de 2008.

Paulo Castelo Branco.

 

VIRA-LATA

Emília, a filha mais velha, é alérgica a pelos. Eduardo, o filho do meio, adora cães. Até o ano passado, Valéria e Ricardo, os pais, conseguiram controlar a questão, alegando a impossibilidade de adquirirem um animalzinho, em virtude da alergia que afeta Emília.

Rick Júnior, o caçula, que só se interessava por mamadeiras e chupetas, aderiu ao pleito do irmão, e as coisas se complicaram. Valéria, a mãe, foi criada em casa com grande área verde e repleta de bichos, e não faz nenhuma restrição à criação de animais. Ainda não tinha um ano idade e já montava um labrador caramelo. Alimentava Bituca com seus biscoitos amanteigados e se lambuzava de chocolates que dividia com a larga boca do companheiro de brincadeiras. Do tio Pedro,  ganhou uma tartaruga que disparava quando via a menina pronta para deixá-la esperneando de barriga para cima. Pelo quintal, passaram dois pôneis, uma cabra com seu cabritinho que já estava acostumado a disputar com Valéria seu alimento. Isso mesmo, era preciso atenção redobrada para não deixar a criança mamar na cabra.

Ao longo da infância e da adolescência, a casa foi habitada pelo Tizil, um vira-lata negro que se tornou símbolo da amizade entre o homem e o cão. Morreu de velho com todo o apoio e tristeza da família. O pastor alemão Greg seguia a menina até a porta da escola e se acomodava sob uma árvore perto da sala de aula. Não saía dali enquanto o sinal não tocasse, encerrando o turno da manhã. Voltavam juntos, caminhando, pelas ruas seguras de antigamente.

Os vizinhos, naquele tempo, distantes, não se incomodavam com os latidos dos cães, os miados dos gatos, o glu, glu, glu do peru, ou o canto madrugador do galo. Valéria viveu feliz.

Ricardo, criado em cidade grande, não teve nem um cachorro como companhia. É verdade que dizia ser dele um dog alemão de nome Fred, que morava na casa da avó. Seus amigos foram as bicicletas, os patins, a bola de futebol. Na adolescência, trocou tudo pela prancha de surf. Adulto, tornou-se praticante de vôo-livre. Não fazia restrições a animais, mas não tinha por eles nenhuma atração e, de alguns, tinha medo de arrepiar os cabelos. Não sabia explicar a razão da aversão e nem tentava. Quando via um cachorro, atravessava a rua.

Por causa da alergia de Emília, combinou-se que, em casa, nada de animais. Agora, Eduardo, Rick e Valéria se juntaram na tentativa de dobrar o pai e a irmã na compra de um cachorrinho. Ricardo foi contra.

Durante semanas, a campanha a favor de McCão – este o nome escolhido pelas crianças – tomou conta da casa. Faixas com a frase “Sim, nós podemos” foram afixadas nos móveis e até no espelho do banheiro. Pequenos adesivos, produzidos no computador, surgiram nos pires da xícara de café, e uma manchete sobreposta na primeira página do jornal. Emília, a alérgica, submeteu-se à vontade da maioria e apoiou a campanha de McCão.

Outro dia, após o jantar, sentados a frente da televisão, assistiram às primeiras palavras do presidente eleito dos Estados Unidos. O homem tinha o mesmo problema e falou sobre a questão perante milhões de pessoas de todas as nações do mundo. Ele afirmou que, se vencesse as eleições, iria dar um cãozinho para suas duas filhas. O cachorro deveria ter pelo curto e ser resistente. Disse, em tom de brincadeira que teria que ser um vira-lata, como ele, o presidente.

As crianças perceberam a oportunidade e se animaram com a ajuda inesperada. Eduardo, pulando no pescoço do pai pediu que fossem comprar, no dia seguinte, o McCão que estava reservado numa petshop das redondezas. Ricardo reagiu alegando que ainda faltavam 70 dias para o presidente cumprir o prometido. – Vamos aguardar. Se ele cumprir a promessa de campanha, eu também arranjo um cachorro, de pelo curto e vira-lata.

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Crise e oportunidade

“Já ouvi várias vezes dos gurus de plantão que 'em chinês, o ideograma para crise é composto dos símbolos de perigo e oportunidade'. Há pessoas, que repetem isso sem pensar ou sequer param para pesquisar, e ficam procurando oportunidades em crises, quando deviam é estar preparadas e prevenir-se contra as mesmas. CRISE é CRISE, e OPORTUNIDADE é OPORTUNIDADE até em chinês. Na realidade, o símbolo para 'crise' (wēi) em mandarim (língua chinesa) é composto de wēi (perigo) e (momento), e todos lá no oriente temem uma crise, do mesmo modo que por aqui no ocidente. Oportunidade em mandarim é 'jīhuì' "

— Dr.Tony Fontoura, D.D., Ph.D.

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